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terça-feira, 6 de novembro de 2012

Cap.15 - Uma nova equipe nadando

Nos momentos em que nos preparávamos para esta travessia, trocávamos inúmeros emails para combinar os detalhes da organização, trocar experiências, discutir temas - alguns sem consenso, mas democracia é isso - enfim, combinar tudo o que era necessário com os recursos que nos eram acessíveis.
Os emails do titio Ed para o Alessandro vinham endereçados como "Alexandre Massaini". No começo eu não entendi direito - pensava que poderia haver outro parente do Alê na jogada, mas conferi o email e vi que era só um probleminha de confusão de nomes. Não deu outra: a partir daquele momento eu passei a chamá-lo de Alexandre - e assim ficou.
Já de minha parte várias vezes eu me referi ao amigo do Alê, que se chama Eugênio, de Eliseu. Era Eliseu pra cá, Eliseu pra lá e o "Alexandre", com seu jeito mineirinho, só deixava a coisa rolar. Até que, um belo dia, ele me corrigiu em alto e bom tom, mas aí já era tarde. O Eugênio já havia virado Eliseu!
Já em Alagoas, não vou me lembrar em qual cidade, o "Eliseu" se dirigiu a mim, chamando-me de Lourival. Risadas e comoção geral do grupo - eu fui rebatizado naquele momento. O "Alexandre" não perdoava uma e me chamava sempre de Lourival.
O titio Ed foi, num deslize do "Eliseu", chamado de Raimundo e assim ficou.
Bom, aí só faltava o Fábio que, rapidamente foi chamado de Flavio - ou por engano do "Eliseu" ou por que ele era o único sem apelido no grupo. Ou será que foi outro nome? Já é difícil de lembrar de tantas variações!
Já o Rodrigo, também conhecido como Tarzan do Cangaço, foi assim chamado desde o primeiro dia.
Resumindo, começaram a travessia nadando o Edmundo, o Alessandro, o Fabio, o Percival e o Rodrigo, com o Eugênio no apoio. Terminaram a travessia o Raimundo, o Alexandre, o Flavio, o Lourival e o Tarzan, com o Eliseu no apoio.
Ou seja, quem começou não terminou e ainda alguns oportunistas entraram no meio da prova. Como pode?
Acho que temos que desclassificar todo o grupo!

sábado, 3 de novembro de 2012

Cap.14 - Fato marcante em Traipu

Alguns fatos curiosos aconteceram após a nossa chegada em Traipu que são dignos de menção. Gostaria de aproveitar para narrar este episódio, fato inédito ao longo de meus 49 anos (na data da travessia):
Ao chegar e sair da água no meio da multidão - gente muito simples e humilde - eu caminhava apertado no meio deles cumprimentando a todos ainda sem saber direito para onde estavam me levando. Outros me paravam para tirar fotos. Era muita gente por metro quadrado, acreditem!
Foi quando um senhor muito simples se achegou de mim, estendeu a mão em minha direção como que para me cumprimentar. Como eu estava retribuindo o cumprimento a todos, assim o fiz também para aquele senhor de pele ressecada pelo sol, moreno e já de cabelos brancos. Ele apertou firme a minha mão e, em seguida colocou na minha mão uma nota de cem reais bem amassada - daquelas verdinhas - e disse que era para mim.
Obviamente eu não entendi a razão e perguntei-lhe do que se tratava. Ele respondeu, numa linguagem muito mais simples e regional do que eu sou capaz de reproduzir aqui, algo como:
- Isso é um presente para você. Um reconhecimento pelo que fez. Pode ficar.
Aquilo me pegou de surpresa, pois a pobreza da região é muito grande - Traipu é uma das cidades mais pobres do estado de Alagoas, senão a mais pobre - e eu imaginei o que cem reais poderia significar para aquele senhor. E ele me oferecia de coração, eu podia sentir isso em sua expressão.
Gentilmente (tão gentil quanto se pode ser após 12 horas apanhando da água) eu agradeci e lhe devolvi o dinheiro e disse-lhe que o usasse para outras benfeitorias e que eu não poderia aceitá-lo. E segui andando.
Aquela imagem foi instantânea. Acredito que todo esse quadro se passou em míseros segundos, mas marcaram em profundidade a minha alma.
Prova de que há nobres valores humanos por todos os lugares - nós é que nem sempre conseguimos percebê-los.


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Cap.13 - Desafio gigantesco - parte II

O tempo foi passando, eu seguia lutando contra as ondas e lentamente os fatos passaram a fazer sentido para mim. Primeiramente soube dos mantimentos - o Foschini e nosso companheiro Eugênio estavam no barco sem ter o que comer. Pelo que entendi mais tarde, eles "filaram uma boia" do piloto, mas não era suficiente. Não devia estar fácil para eles ali também. E a cidade de Traipu que não chegava nunca!
Num determinado momento eu, já ligeiramente cansado e estressado, perguntei pro Foschini:
- Afinal, falta quanto?
Ele me respondeu:
- Tá vendo aquela igrejinha lá naquela margem?
- Tô - eu menti de volta. Eu não enxergava mais muita coisa àquela altura do campeonato.
- Ali o rio vira para a esquerda. a cidade é logo depois da curva.
Como se eu não conhecesse essa velha história de barqueiros que dizem que seu objetivo está logo depois da próxima curva, eu insisti na pergunta:
- Quantos quilômetros depois da curva?
- Seis - o Foschini chutou. Ele não sabia, mas como eu insisti, ele tinha que me passar alguma informação que eu considerasse crível. O pior foi que havia um rapaz sentado no teto do barco que confirmou aquela versão e eu passei a nadar orientado por aqueles números.
Já eram cerca de 15 ou 16 horas quando soube que meus colegas que vinham mais atrás escoltados pelos Bombeiros haviam parado. Não sei ao certo, mas eles devem ter nadado uns 35 a 40 quilômetros até aquele momento. Mais tarde compreendi o que aconteceu: os Bombeiros corriam o risco de ficar sem combustível, pois o tanque extra estava sendo transportado no nosso barco, que se desgarrou sem avisá-los. Então eles se viram forçados a tirar os três nadadores da água para que o combustível restante fosse suficiente para alcançar o nosso barco, mais à frente. A história que eu ouvi ao final do dia e que faz um certo sentido é que não haveria tempo para completar a prova durante o dia, então a perda não fora assim tão grande. Mas conhecendo um nadador de longa, aposto como nenhum dos três se conformou com o fato. São três heróis, que não fugiram ao compromisso e nadaram o quanto lhes foi permitido. Sinto orgulho de sua dedicação e seu empenho!
Logo, o barco dos bombeiros se aproximou, se abasteceu com a gasolina provida do nosso barco e eles passaram a me prestar todo o apoio necessário. Como eu era o único na água, não havia necessidade do segundo barco estar logo ali, ao meu lado. Então, o barco da prefeitura foi dispensado de continuar me acompanhando e navegou até próximo de nosso ponto de chegada, levando consigo o Foschini, o Alessandro e o Tarzan. O Fabio ficou junto com os bombeiros para me dar uma força nesta fase final, que é tão importante. Aos poucos ele foi me explicando - a cada parada de alimentação - o que havia se passado e por que eles estavam ali.
Com a presença dos Bombeiros e seu fabuloso GPS, foi possível dizer com precisão a distância faltante e eliminar os achismos anteriores. Lembro-me de alguns relatos na faixa dos 13 km que (muito) lentamente iam se reduzindo até a cidade. Após a famigerada curva, ainda tínhamos 8 km para nadar. Até que o chute do Foschini não tinha sido assim tão fora da realidade. Mas as impiedosas ondas continuavam altas e fortes. Eu já não sentia mais aquele bom rendimento das primeiras horas - estava esgotado e absolutamente centrado na ideia de chegar.
Os Bombeiros não saíam do meu lado - aquilo não ajudava fisicamente, mas representava um apoio psicológico importantíssimo para uma mente esgotada. Aquilo me lembrou de minhas chegadas na 14 Bis, onde temos a impressão que um conselho a três quilômetros do final vale mais do que um em início de prova.
Quando faltavam uns 1500 metros para eu chegar, o Foschini, o Alessandro e o Tarzan pularam na água de seu barco, que estava a cerca de 600 metros da chegada. O Fabio continuou no barco dos bombeiros, viu aquilo e não gostou.
- Eles vão chegar na sua frente, sem ter nadado o trajeto todo. Isso não pode! - dizia ele, além de outras expresssões de desagrado com esta situação que escutei dele naqueles metros finais.
Eu não quero tirar-lhe nem dar-lhe razão - na verdade eu não tinha condição de pensar em nada mais naquele momento senão chegar. Tanto que pouco reagi aos comentários e pouco me importava o que estava se passando neste quesito.
Os Bombeiros me acompanharam até um ponto no rio exatamente frontal a uma pequena baía onde uma multidão se amontoava à beiro do rio para nos receber. Dali em diante era comigo. Deviam faltar uns quatrocentos metros apenas - impossível dar alguma coisa errada.
Pois deu. Devido às fortes ondas contrárias e à minha baixa visibilidade, eu fui levado para cima do rio e, quando percebi, a cidade não estava mais à minha frente. Senti-me um tanto perdido. Os Bombeiros foram pacientemente até onde eu estava para me reorientar, com um ar de riso nos lábios. Acho que era difícil de entender como foi que eu consegui me perder estando tão perto. Novamente mais uns quinhentos metrinhos - eu estava quase lá!
Havia umas seiscentas pessoas - estimo - mas alguns falam em mil - à beira d'água olhando para mim. Eu parecia um alienígena vindo de outro planeta sendo seguido por aqueles olhos incrédulos. Mais à direita - na parte mais baixa do rio - havia uma rampa de acesso onde estavam as autoridades locais - a prefeita, alguns secretários e assessores. Devido ao estado em que me encontrava, eu simplesmente não os vi - juro, não fiz por mal. Ao buscar o ponto de saída da água, mirei em algumas pedras grandes e para lá fui nadando. O rio não era raso ali, por ser uma região onde atracavam os barcos, mas eu finalmente apoiei meus braços naquele matacão umedecido e o escalei com um misto de cansaço e realização. A população estava ali, a meio metro de mim, e não sabia como me ajudar. Foi quando eu comecei a me embrenhar por aquele povo, feliz de tocar o chão novamente com meus pés, sob os aplausos e os cumprimentos de uma população simples e sofrida. Aquilo a gente via estampado em suas faces enrugadas e queimadas do sol. Muitos me davam a mão, outros me abraçavam, outros tiravam fotos, todos aplaudiam. Fui paparicado demais! Bela recompensa. Inesquecível.

A população compareceu em massa à nossa chegada em Traipu. Foi o evento do ano!

Rapidamente um dos assessores surgiu no meio da multidão e me conduziu até onde estavam as autoridades locais, com quem dialoguei por alguns instantes.
Poucos minutos mais tarde, chegaram nadando o Alessandro, o Foschini e o Tarzan. Eles chegaram pela rampa correta, onde eu agora me encontrava. Foram ovacionados também pela população local. O Fabio não quis chegar nadando, por sua opção, que eu entendo e respeito.
Eram 17:45h. Eu havia nadado quase doze horas e completado o percurso neste duro segundo dia de prova. Com isso, a moral natatória de nosso projeto estava mantida. Para lutar por uma causa - no caso, a preservação do Rio São Francisco - o fato de atingir seus objetivos confere ao evento uma tonalidade especial. Aliás, todos estavam de parabéns - o Alessandro, Fábio e o surpreendente Tarzan do Cangaço foram valentes e destemidos - nadando seus trajetos naquele dia com muito foco e dedicação. Até mesmo o Foschini, em seus cinco quilômetros nadados naquele dia, colaborou para o sucesso do projeto.
Fatos curiosos - alguns engrandecedores, outros nem tanto - se sucederam após a chegada em Traipu - que passo a descrever sucintamente nos próximos capítulos. 
Conto com sua prazeirosa companhia nos textos a seguir!

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Cap.12 - Desafio gigantesco - parte I

O dia começou a clarear por volta das cinco horas.
A equipe já estava um tanto desgastada. Afinal, atrasamos a largada - e não foi pouco - quando poderíamos dormir um pouco mais, algo importante para o que nos esperava. Seriam quase duas horas e meia a mais de sono que fariam uma grande diferença no rendimento e bem estar dos atletas. Lembro-me de conversar com o Foschini a sós sobre isso, mas não chegamos ao consenso sobre os porquês daquilo ter acontecido.
O barco finalmente se aproximou da prainha e estendeu sua rampa de entrada. Os Bombeiros e a Marinha ainda preparavam seus equipamentos para entrar na água. Do nosso lado, os últimos preparativos: protetor solar, vaselina nas articulações, mochilas nos barcos corretos, mantimentos, remédios, combustível e tudo o mais.
Antes de entrar na água, combinamos que iríamos nadar todos juntos e informamos a todo o pessoal de apoio. No dia anterior fora difícil acompanhar aos nadadores, que estavam bem afastados uns dos outros. Um barco da prefeitura e o barco dos bombeiros nos acompanhariam. O primeiro era bem grande - eu arrisco dizer cerca de 60 pés ou mais - e pouco apropriado para fornecer o suporte que o nadador precisava. Era difícil de manobrar e não conseguiria acompanhar o nadador de perto. Mas fora cedido com tanta boa vontade pelo pessoal local que estávamos muito satisfeitos - fazia parte da dificuldade da prova fazer o melhor com o que tínhamos.
A seguir, uma visão interna de um barco similar, onde confabulavam o Fabio e o Tarzan.



Já o barco dos bombeiros era pequeno e sem cobertura nenhuma - haja protetor solar! Veja a seguir:


Entramos na água às seis da manhã. Os bombeiros ainda não estavam prontos mas em poucos minutos nos alcançariam. Saímos com o barco e, a poucos metros da margem - fora do mangue e de uma ilha próxima - mergulhamos e iniciamos nosso nado.
Após pouco menos de uma hora de prova, tivemos nossa primeira baixa: o Foschini sentiu muito frio e decidiu subir no barco até que o sol tivesse maior incidência para poder voltar. Foi realmente uma pena, pois um nadador sempre transmite mais confiança ao outro quando está ali, empenhado na mesma luta com você. Mas sua sensibilidade ao frio era-me bem conhecida - ele já havia desistido na Travessia 14 Bis de 2008, o famoso ano do ciclone extratropical, por problemas de temperatura. No Velho Chico, eu estimava a temperatura da água em 24 a 25 graus. Já os demais nadadores achavam que estava cerca de 22 apenas. Nunca tiramos a prova dos nove e não saberemos ao certo - mas ele sentiu e saiu.
O ritmo de prova era bem lento. Após uma hora e meia, víamos que não chegaríamos a lugar algum naquela velocidade. Era preciso mudar a tática. Foi o próprio Foschini - já no barco - quem sugeriu e eu acatei:
- Percival, neste ritmo não vamos chegar. É melhor você ir nadando à frente dos demais.
Ouvir aquilo era como música para meus ouvidos. Assim, passei a imprimir um ritmo mais forte e fomos nos distanciando dos demais. O barco da prefeitura nos acompanhava - com o Foschini dentro dele - enquanto os Bombeiros escoltavam o Alessandro, o Fábio e o Tarzan.
O que eu desconhecia naquele momento - até por que o nadador não tem que se preocupar com essas coisas - eram quatro fatos básicos:
1. o Foschini não combinou com os Bombeiros sobre esta nova tática
2. o combustível adicional para o barco dos Bombeiros estava no barco da prefeitura - o nosso
3. os mantimentos da tripulação do barco da prefeitura estavam no barco dos Bombeiros
4. os rádios de comunicação, assim com os Bombeiros, estavam todos no barco dos Bombeiros
Já deu para imaginar o que aconteceu no restante do dia...

Seguia nadando ritmado, rezando para o vento não entrar forte. Fazia o possível para render o máximo antes da inevitável chegada dos maretões. Acredito que tenha nadado por cerca de três horas antes de sentir as primeiras ondulações na superfície da água.
De tempos em tempos - a cada meia hora aproximadamente - uma pausa para eu tomar minha maltodextrina e a pergunta sobre os demais.
- Eles estão vindo mais lá atrás. - respondia o Foschini, sequinho no aconchego do barco.
A prova caminhava bem, mas era bastante longa. Passado um pouco das nove horas da manhã, as ondas começaram. Como no dia anterior, elas começam pequenas e inofensivas e tornam-se grandes e inevitáveis. As margens do rio naquela região eram mais descobertas e o vento começou a entrar forte. Não adiantava buscar refúgio na margem alagoana ou sergipana - as ondas começaram a castigar.
O Foschini logo se apercebeu de minha situação e fazia recomendações para eu nadar colado ao paredão do lado alagoano. Eu não sentia segurança de me aproximar demais daqueles maciços, pois me sentia facilmente manipulado pelas ondas e poderia bater em alguma protuberância próxima. Não adiantava muito.
Solicitei ao Foschini que o barco ficasse ao meu lado, para me proteger do vento, de forma análoga ao que fazemos no Canal da Mancha. Ele me disse que o barco não permitia aquele nível de manobrabilidade e havia o risco de eles me atropelarem, se estivessem mais próximos.
Apanhei um bocado daquelas ondas. Estas não apenas atrapalham a coordenação dos movimentos forçando suas articulações, elas também fazem o nadador beber água inesperadamente em seu ciclo de respiração lateral. Comecei a ficar enjoado com a água ingerida. A cada parada para alimentação eu não conseguia ingerir malto o suficiente. Eu sabia que isso não era bom e que, se a energia acabasse, acabaria o meu sonho.
Após muito nadar, recebo a notícia de que estávamos a cerca de 40 a 45% do percurso. Meu nado não rendia mais o mesmo tanto do início - as ondas atrapalhavam bastante e meus ombros começaram a mostrar sinais de cansaço.
Numa parada, o Foschini me falou:
- Tá vendo aquele povoadinho lá longe? - estava tão longe que minha visão cansada e já embaçada mal conseguia discernir - Lá é a metade do caminho - disse ele.
Estava realmente difícil. Na próxima parada, já próximo da metade da prova, pedi ao Foschini:
- Me passa as nadadeiras. Eu vou usá-las.
Eu não queria, mas eu achei o melhor a fazer naquelas condições. Afinal, todo nadador gosta de cumprir o desafio sem ajuda de equipamentos. Mas a imprevisibilidade das condições locais pegou muito forte.
Daquele ponto em diante, senti-me reanimado pois conseguia penetrar as ondas com mais facilidade. Meu objetivo agora era não desgastar demais as pernas para poder suportar até o final. Em treinos eu nunca havia nadado exaustivamente de nadadeiras - somente alguns pequenos trechos. Aquela era a hora da verdade!
Deixamos o povoado para trás e segui nadando. Quando vesti as nadadeiras, já não havia sinais visuais de nossos três amigos nem dos Bombeiros - eles haviam ficado muito além das curvas do rio. Eles também estavam sentindo as dificuldades do trajeto, com toda a certeza. A distância entre nós certamente aumentaria daquele ponto em diante.
As nadadeiras fizeram uma boa diferença, mas eu comecei a sentir um cansaço maior e um incômodo da borracha que machucava meu pé, deixando-o em carne viva na região do tornozelo. Não era muita coisa, mas já começava a incomodar.
A certa altura, buscando soluções para estes pequenos problemas que se apresentam - e que podem te tirar da prova - resolvi parar alguns segundos e trocar os pés das nadadeiras entre si: o esquerdo foi pro direito e vice-versa. Aquilo deu um maior nível de conforto e me permitiu seguir nadando.
Continuei apanhando e, involuntariamente, bebendo água ao respirar lateralmente. Ainda faltava muito quando, pela primeira vez em minha vida pensei em desistir. O sentimento de "entregar os pontos" estava lá - escondido em algum lugar profundo em minha alma - e as crescentes dificuldades da prova fizeram-no aflorar e, com o passar do tempo, ele foi ganhando força e espaço em minha mente.
Aquela sensação era muito ruim. Eu queria evitá-la, mas não pude. Levantei a cabeça e disse para mim mesmo:
- Eu nunca desisti antes. Que mal faz eu desistir uma vez? Tudo bem, depois eu conto pros outros e a gente se entende. Vou desistir!
Mas nessa hora, olho em volta e percebo que o barco não estava por perto.
- Porra, meu! - pensei - justo agora que eu quero desistir vocês estão assim longe? OK, eu vou nadando até lá e então eu desisto!
O barco havia se adiantado para me indicar o caminho. Naquela região havia uma croa no meio do rio - uma pequena ilha bem rasteira coberta por uma vegetação tênue - que o nadador não enxerga direito e que os barcos têm de evitar a todo o custo, para não encalharem. Ele se encontrava algumas centenas de metros à frente bem à esquerda e eu corrigi meu rumo para encontrá-lo. Afinal, eu ia desistir tão logo os encontrasse!
Não sei se por força da natureza, se havia alguma relação com a croa, mas surgiram no leito do rio algumas algas enormes - chamadas de rabo-de-raposa - que se inclinavam na direção do fluxo do rio e ficavam oscilando para cima e para baixo num movimento como que acenando para mim. Em alguns pontos era tão densa e fechada que mal se conseguia enxergar o fundo. Nessas ocasiões eu ficava pensando:
- Que tipo de peixe (ou outro animal) pode se esconder aí debaixo?
Aquilo me provocou um duplo sentimento: de admiração pela beleza da natureza e de receio pelo que ela poderia estar escondendo de mim.
- Mais uma razão para eu desistir - pensei comigo mesmo. Cadê o barco? Cadê?

Uma pequena amostra das algas que se estendiam por centenas de metros,
talvez quilômetros do rio. Sinistras, não?

As algas chegaram a se avolumar sob meu corpo a tal ponto que não sobrava mais do que uns dez centímetros de água para minha braçada. Eu evitava a todo o custo enfiar as mãos e os braços no meio delas. Até que passei a ondular submerso sem braçadas bem próximo à superfície. A força das nadadeiras somada à correnteza do rio me permitiram percorrer aquela região ondulando - era um nado borboleta sem os braços e com os dois olhos bem abertos e o outro fechado, se é que me entendem.
Estranhamente aquele novo estilo me fez bem. Como eu mantinha-me com a cabeça submersa sem a respiração lateral do crawl, eu passei a engolir menos água. Ondulava oito vezes e respirava. Às vezes mais. Mas o fato de não estar mais engolindo involuntariamente a água me trouxe uma maior sensação de conforto. A região dominada pelas algas era menos suceptível às ondas - acho que por amortecerem reflexões de água no leito do rio ou algum outro fenômeno parecido.
O resultado? Eu não queria mais desistir - aquele sentimento ruim havia se dissipado. Ao chegar ao barco, em mais uma parada para alimentação, trocamos algumas ideias: eu comentei sobre as algas e o Foschini falou-me da croa e por que era importante desviar dela por ali, a bombordo - por que a estibordo, o rio era raso e havia risco de encalhe da embarcação. Em momento algum eu externei minha quase-desistência. Falar pra quê? Aquele sentimento não existia mais!
Esse dia foi tão longo que sinto-me na obrigação de dar uma pausa para os leitores descansarem também, até o próximo texto.
Até lá, então.


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cap. 11 - Uma conturbada madrugada

Segundo dia de nossa travessia. Estávamos em Pão de Açúcar e rumaríamos até a próxima cidade - Traipu.
Por volta das duas da manhã o Foschini veio acordar a todos - ele era bom nisso, pois estava acostumado a levantar muito cedo em sua casa - além de ter ido dormir mais cedo na noite anterior. Acordar naquela hora parecia absolutamente desumano para nós - o Fábio e eu - que havíamos dormido apenas quatro horas. Chiamos um bocado até conseguirmos levantar.
O pessoal se encontrou na cozinha, onde rapidamente tomamos um café da manhã - preparado por nossa anfitriã com toda a boa vontade - e fomos carregar os carros que nos levariam até a margem do rio. Tratava-se de equipamentos eletrônicos, o famigerado gelo - sim, ele chegou a tempo! - mantimentos básicos para as equipes de apoio - por terra e pela água - além da lancha dos Bombeiros e do jet-ski da Marinha, guardados longe de nossa pousada.
Pouco antes de nossa saída, o Foschini se aproximou dos demais nadadores e disse:
- Olha, o dia de hoje vai ser revezamento. A distância é muito grande e de outro jeito não vai dar.
Ele havia conversado com o pessoal da região na noite anterior que o havia desaconselhado a nadar todo o trajeto. Eles diziam que seria inimaginável que um ser humano nadasse tudo aquilo e a distância certamente era muito maior que os 57 km que eu afirmava separar as duas cidades.
Em minha modesta opinião, há certas pessoas em certos momentos que não devem ser ouvidas. Mas a distorção não está localizada unicamente naquele que fala. Se o ouvinte partilhar de convicções parecidas, ele absorve a mensagem em todos os seus detalhes e ainda a amplifica. É sábia a frase de Nietsche, que diz:  "As convicções são maiores inimigas da verdade do que as mentiras."
Como eu já conhecia a tendência do Foschini de aumentar todas as distâncias nadadas, ele acreditou no dito cujo, que falava em mais de sessenta e tralalá quilômetros, e trouxe esta proposta - ao meu ver, indecente - para o grupo, que a rejeitou veementemente por unanimidade dos ouvintes. Nós estávamos ali para nadar - mesmo que falhássemos - mas queríamos nadar. Havíamos nos preparado arduamente para tal e não seria uma opinião pessoal - que, apesar bem intencionada, era imprecisa - que nos desviaria de nosso objetivo.
Na calçada do lado de fora da pousada, acheguei-me ao nosso colega bombeiro, com seu sofisticado GPS na mão e perguntei-lhe sobre a real distância até Traipu. Ele me respondeu em poucos instantes que a distância real não variava mais de cem ou duzentos metros de minha previsão inicial - mais uma confirmação de que havíamos planejado apropriadamente o trajeto. Era um problema a menos. Só nos restava o segundo "probleminha": nadar tudo aquilo, o que não deixava de ser uma tarefa hercúlea.

Chegamos à beira do rio às três e meia. A madrugada estava um tanto friazinha com a umidade do local e a ausência absoluta do rei sol. A iluminação era mantida apenas por uma lâmpada de um poste que insistia em apagar ciclicamente, deixando-nos no maior breu de quando em quando. O leito do rio estava imerso na mais profunda escuridão. Não se via luz à distância na margem sergipana, exceto por alguns pontos aqui e acolá.
Aguardávamos o barco de acompanhamento, cedido gentilmente pela prefeitura de Pão de Açúcar. Enquanto ele não aparecia, os Bombeiros e a Marinha chegaram ao local. Como não havia sinal de barco de apoio, nem os Bombeiros nem tampouco a Marinha se animaram em colocar seu barco e jet-ski na água.
Muitos questionamentos começaram a surgir. Uma tese dominante era a de que o barco poderia sair de outro ponto, mais apropriado para embarcações, que ficava cerca de quinhentos metros (ou mais) rio abaixo e que poderia estar nos esperando por lá. Já eram cinco horas da manhã, quando os Bombeiros rumaram para lá, rebocando seu barco - com o Foschini sentado no reboque - enquanto os demais nadadores pegaram uma carona na pickup da Marinha.

Começamos a ouvir o ruído de um motor de barco e a identificar luzes tênues à distância que indicavam que o barco estaria chegando no exato momento em que nos deslocávamos. Um apoio da prefeitura ficou para orientar o barco para nos pegar na outra prainha.
De lá partimos para a jornada natatória mais longa de minha vida. Tão longa que deixarei sua descrição em detalhes para minha próxima postagem.