Total de visualizações de página

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cap. 11 - Uma conturbada madrugada

Segundo dia de nossa travessia. Estávamos em Pão de Açúcar e rumaríamos até a próxima cidade - Traipu.
Por volta das duas da manhã o Foschini veio acordar a todos - ele era bom nisso, pois estava acostumado a levantar muito cedo em sua casa - além de ter ido dormir mais cedo na noite anterior. Acordar naquela hora parecia absolutamente desumano para nós - o Fábio e eu - que havíamos dormido apenas quatro horas. Chiamos um bocado até conseguirmos levantar.
O pessoal se encontrou na cozinha, onde rapidamente tomamos um café da manhã - preparado por nossa anfitriã com toda a boa vontade - e fomos carregar os carros que nos levariam até a margem do rio. Tratava-se de equipamentos eletrônicos, o famigerado gelo - sim, ele chegou a tempo! - mantimentos básicos para as equipes de apoio - por terra e pela água - além da lancha dos Bombeiros e do jet-ski da Marinha, guardados longe de nossa pousada.
Pouco antes de nossa saída, o Foschini se aproximou dos demais nadadores e disse:
- Olha, o dia de hoje vai ser revezamento. A distância é muito grande e de outro jeito não vai dar.
Ele havia conversado com o pessoal da região na noite anterior que o havia desaconselhado a nadar todo o trajeto. Eles diziam que seria inimaginável que um ser humano nadasse tudo aquilo e a distância certamente era muito maior que os 57 km que eu afirmava separar as duas cidades.
Em minha modesta opinião, há certas pessoas em certos momentos que não devem ser ouvidas. Mas a distorção não está localizada unicamente naquele que fala. Se o ouvinte partilhar de convicções parecidas, ele absorve a mensagem em todos os seus detalhes e ainda a amplifica. É sábia a frase de Nietsche, que diz:  "As convicções são maiores inimigas da verdade do que as mentiras."
Como eu já conhecia a tendência do Foschini de aumentar todas as distâncias nadadas, ele acreditou no dito cujo, que falava em mais de sessenta e tralalá quilômetros, e trouxe esta proposta - ao meu ver, indecente - para o grupo, que a rejeitou veementemente por unanimidade dos ouvintes. Nós estávamos ali para nadar - mesmo que falhássemos - mas queríamos nadar. Havíamos nos preparado arduamente para tal e não seria uma opinião pessoal - que, apesar bem intencionada, era imprecisa - que nos desviaria de nosso objetivo.
Na calçada do lado de fora da pousada, acheguei-me ao nosso colega bombeiro, com seu sofisticado GPS na mão e perguntei-lhe sobre a real distância até Traipu. Ele me respondeu em poucos instantes que a distância real não variava mais de cem ou duzentos metros de minha previsão inicial - mais uma confirmação de que havíamos planejado apropriadamente o trajeto. Era um problema a menos. Só nos restava o segundo "probleminha": nadar tudo aquilo, o que não deixava de ser uma tarefa hercúlea.

Chegamos à beira do rio às três e meia. A madrugada estava um tanto friazinha com a umidade do local e a ausência absoluta do rei sol. A iluminação era mantida apenas por uma lâmpada de um poste que insistia em apagar ciclicamente, deixando-nos no maior breu de quando em quando. O leito do rio estava imerso na mais profunda escuridão. Não se via luz à distância na margem sergipana, exceto por alguns pontos aqui e acolá.
Aguardávamos o barco de acompanhamento, cedido gentilmente pela prefeitura de Pão de Açúcar. Enquanto ele não aparecia, os Bombeiros e a Marinha chegaram ao local. Como não havia sinal de barco de apoio, nem os Bombeiros nem tampouco a Marinha se animaram em colocar seu barco e jet-ski na água.
Muitos questionamentos começaram a surgir. Uma tese dominante era a de que o barco poderia sair de outro ponto, mais apropriado para embarcações, que ficava cerca de quinhentos metros (ou mais) rio abaixo e que poderia estar nos esperando por lá. Já eram cinco horas da manhã, quando os Bombeiros rumaram para lá, rebocando seu barco - com o Foschini sentado no reboque - enquanto os demais nadadores pegaram uma carona na pickup da Marinha.

Começamos a ouvir o ruído de um motor de barco e a identificar luzes tênues à distância que indicavam que o barco estaria chegando no exato momento em que nos deslocávamos. Um apoio da prefeitura ficou para orientar o barco para nos pegar na outra prainha.
De lá partimos para a jornada natatória mais longa de minha vida. Tão longa que deixarei sua descrição em detalhes para minha próxima postagem.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Cap.10 - A primeira noite, em Pão de Açúcar

Ao chegarmos em Pão de Açúcar, o pessoal que havia vindo por terra veio ajudar no transporte e guarda dos equipamentos. Estamos falando aqui dos Bombeiros e do pessoal da Marinha.
Os primeiros estavam divididos em dois grupos: um nos acompanhava em água e outro seguia de caminhonete por terra para, no final do dia, tirar o barco da água, colocá-lo na carreta e guardá-lo.
Nossos incansáveis - mas já cansados - amigos Bombeiros:
indispensáveis para o sucesso de nosso projeto.

Já a Marinha entrava de Jet Ski na água conosco, nos acompanhava pelos primeiros quilômetros e depois voltava à origem, tirava o jet-ski da água, colocava-o na carreta e ia de caminhonete até a próxima cidade. Pouco antes de chegarmos, eles entravam na água novamente e nos acompanhavam nos minutos finais de cada etapa. Eles não estavam equipados para nos acompanhar durante todo o trajeto - o jet-ski não tinha a autonomia necessária - e a proteção fornecida pelos bomeiros já seria o suficiente.

Nossos amigos da Marinha contribuíram - e muito - para o nosso sucesso!

A presença de ambas as entidades agregou uma visão diferenciada no decorrer da prova e nos assegurou um ambiente livre de imprevistos - mesmo que, para tal, eles tivessem que oferecer uma visão diferente daquela dos nadadores, sempre buscando garantir a nossa segurança.

Antes de nos retiramos das margens do rio - permanecemos ali um longo tempo até a chegada dos demais nadadores (cerca de 20 a 30 minutos) e até os equipamentos serem retirados d'água - testemunhei o Foschini fazendo os últimos arranjos com o pessoal da prefeitura para que o barco da cidade - que nos acompanharia no segundo dia - estivesse ali, naquele ponto, às cinco da manhã. De lá fomos transferidos em carros dos locais para uma pousada na cidade. Confesso que não me recordo o nome da pousada, nem de sua egrégia proprietária (vou chamá-la aqui de sra. X), que tão bem nos recebeu - festiva, alegre, contadora de piadas e um tanto "demasiadamente espontânea" em suas palavras também.
Eu fiquei num quarto logo na entrada do hotel, junto com o Fabio. O Foschini e o Alessandro subiram para o primeiro andar e lá se alojaram. No meio do caminho havia a cozinha, onde trabalhava com afinco a sra. X. Afinal, naquela noite, ela tinha que alimentar cerca de doze pessoas - onde algumas ali comiam bem.
Eu não sei como o Foschini é magro daquele jeito. Vocês têm que ver como aquele ser humano come! Acho que é por isso que a (Santa) Mara cozinha tão bem - ou seria o contrário? Não sei dizer ao certo. 
Na verdade, nenhum dos nadadores ali comia pouco. Já os bombeiros e os oficiais da Marinha pareciam absolutamente normais, para sorte da Sra. X.
Assim, jantamos tão logo a comida ficou pronta. Precisávamos dormir logo para o dia seguinte, que seria o mais difícil de todos. Na cozinha não havia lugar para todos sentarem. A Sra. X pôs as panelas, pratos e talheres na mesa e se retirou. Eu tentei sentar-me junto à mesa e, ao puxar a cadeira, seu assento caiu no chão - estava desparafusado - e as baratinhas que se escondiam em sua estrutura tubular deram o ar da graça e fugiram para debaixo da pia.
Enquanto todos comiam eu tentava persegui-las movendo os objetos sob a pia, somente para perceber que eu havia desalojado outras baratinhas de suas casas. Uma delas estava agora sobre a pia, outras sob a mesa e sob a pia também. Desisti. O melhor a fazer era comer (aaargh!) e logo sair dali.
Naquela hora eu lembrei do Niltão e pensei:
- Esse cara se livrou de uma boa aqui. Imagine se ele vem e trás a (santa) esposa junto - nossa, que tragédia teria sido!
Antes de subir para dormir, o Foschini, que havia se aconselhado com o então secretário de Traipu (a próxima cidade vizinha), resolveu mudar os planos e comunicou:
- Amanhã temos que sair às três e meia da manhã ou não vamos conseguir chegar em Traipu (a terceira cidade em nosso trajeto).
Nós, nadadores, ouvimos com muito pesar aquela notícia pois ela implicava em levantarmos às duas ou duas e meia da manhã e também teríamos de nos preparar para o nado noturno. Nadar à noite implica em preparar os sinalizadores químicos luminosos para que possamos prendê-los na touca/ nos óculos de natação para sermos rastreados com facilidade na escuridão.
Percebemos que nossos amigos Bombeiros e Marinha ouviram e não discutiram, mas acharam o horário de saída muito pouco apropriado, com certeza.
O Foschini e o Alessandro simplesmente sumiram de vista e foram dormir. Ficamos eu e o Fabio preparando a alimentação do dia seguinte. Aquilo dava um trabalho danado. Eu preparava maltodextrina em dois ou três sabores diferentes, acondicionava em garrafas e colocava no isopor/ mala  térmica que, pela manhã, iria receber o gelo. Já o Fabio tinha umas duzentas fórmulas diferentes que sua nutricionista lhe recomendara e que tinham de ser preparadas na noite anterior. Aquilo nos consumia mais de hora para ficar pronto. Pelo menos as baratas deram um tempo naquela hora!
Foi quando chegou o representante da prefeitura e nos chamou para uma homenagem na pracinha da cidade. Afinal, aquele ainda era o dia de São Francisco e a cidade iria aproveitar de nossa passagem para fazer um evento na pracinha central da cidade, chamar a população e prestar uma homenagem aos nadadores.
Uma homenagem naquele momento representava algumas horas a menos de sono. O que fazer?
O Foschini era o contato oficial com as prefeituras - afinal, ele era da região e havia contatado o pessoal da cidade pessoalmente. Fui chamá-lo para comparecer - ele nem mesmo se dignou a levantar da cama - disse que não podia ir, pois tinha que dormir.
Eu fiquei muito sem jeito de dizer não àquela população que nos acolheu - e resolvi ir até lá junto com o Fabio e o Tarzan do Cangaço. Os demais ficaram dormindo.
De fato, no coreto da pracinha ouvimos os discursos das autoridades presentes, foi-me dada a oportunidade de falar algumas breves palavras - o que fiz com muita comedição. Também nos foram oferecidas duas lembranças da cidade: uma pequena estátua de gesso com o símbolo da cidade - o Cristo Redentor sobre o Pão de Açúcar (mostrado no post anterior) - e uma pequena escultura em madeira, representando uma canoa chamada de Igaci que, pelo que nos contou o prefeito, era responsável por várias vitórias em competições locais.
Saindo de lá,  esperávamos ir dormir logo que possível. Mas, como em toda história  tem sempre um "mas", o prefeito da cidade - muito simpático e prestativo conosco - insistiu em seu discurso que fôssemos visitar o museu da cidade, organizado pelo nosso já amigo e secretário de Traipu. Novamente fiquei sem jeito de dizer não e, desta vez sozinho, fui acompanhar meu anfitrião Jackson (simpaticíssimo por sinal - vejam na foto abaixo) até seu museu, onde ele me contou várias histórias da região.

O Jackson, muito gentil, me apresentou o museu da cidade em Pão de Açúcar

Após essa breve visita, voltei ao hotel e lá encontrei o Fabio ainda preparando sua alimentação. Eu ainda tinha que encontrar uma maneira de manter o nadador sinalizado no escuro - isto é, com o sinalizador luminoso próximo à cabeça e bem visível. Para mim, a segurança vem em primeiro lugar. Eu pensei em usar alguns amarrilhos para amarrá-los, mas descobri que aquela região é tão desprovida dessas modernidades que eles desconheciam completamente o que era um amarrilho.
Então eu pedi um pão de forma - dali eu tiraria o amarrilho - e recebi a resposta:
- Aqui não tem isso não.
O que fazer? Como prender os sinalizadores? Imaginei usar um barbante, mas a dona da pensão não tinha. Perdi mais de hora para conseguir improvisar com um pedaço pequeno de arame que eu dispunha para os cinco sinalizadores que iríamos usar. Meu objetivo era acabar logo aquilo e, antes de ser comido pelas baratas, voltar ao meu quarto para poder dormir - o mais importante naquela hora, pois o desafio no dia seguinte era de 57 km, o mais pesado de toda a nossa empreitada.
Mas aquilo não era tudo. Eu ainda tinha que carregar as baterias dos comunicadores, da lanterna e tentar uma comunicação via internet - em vão, pois não havia sinal por ali.
Eu dormi apenas quatro horas, graças a essas atividades extras - as homenagens, a visita ao museu, a preparação da malto e dos sinalizadores, etc. O Fabio não foi muito diferente. Já o Foschini e o Alessandro, que se trancaram em seus quartos logo na chegada, tiveram algumas horas a mais para dormir.
O dia seguinte prometia fortes emoções...

domingo, 28 de outubro de 2012

Cap.9 - A travessia "on the rocks"

Tanto no dia de nossa largada de Piranhas como no segundo dia de nossa travessia, saindo de Pão de Açúcar, conseguimos receber alguns pacotes de gelo das prefeituras locais para manutenção de nossa alimentação numa temperatura agradável no meio daquele calor infernal. Mas obtê-lo demandava um esforço de convencimento nada desprezível junto às prefeituras. Voltamos à questão do MODELO de organização, que já foi tratado anteriormente e dispensa maiores comentários.
O gelo havia sido motivo de discussão forte como item de planejamento de nossos suprimentos e não houve maneira de chegarmos ao consenso. Quando eu perguntava pro Foschini se as prefeituras aceitariam nos fornecer gelo, ele respondia o seu famoso:
- Na hora a gente vê.
Talvez eu estivesse preocupado demais com o fato, mas sem gelo, o sucesso desta travessia poderia ser seriamente comprometido, por impossibilitar a ingestão de malto numa temperatura adequada. Num sentido ele tinha razão: algumas das cidades no trajeto dependiam da pesca - logo, havia gelo em abundância. Meu pensamento era um pouco diferente: será que aquele gelo abundante estaria disponível para nossas largadas NA HORA CERTA? O plano era largar de Pão de Açúcar às três e meia da manhã - ele estaria lá?
As correntes de pensamento eram duas:
Eu nado provas longas sempre com o apoio de matodextrina - acondicionada em baixa temperatura, para que fique mais agradável de beber. Fui orientado assim por meu nutricionista quando de minha travessia do Canal da Mancha e entendo que trata-se do melhor e mais adequado complemento alimentar (não é o único, obviamente) para provas longas (acredito que não somente eu, mas todo o mundo esportivo de alta performance pensa desta maneira). Pode ser acompanhada por outros quitutes, mas com moderação. O Fábio recebera recomendações similares de sua nutricionista - a base da alimentação também seria a maltodextrina - e incluía requintes de sofisticação no preparo, adicionando complementos diversos e bem planejados às suas garrafinhas. Ele seguia à risca todas as recomendações e gastava um bom tempo em seu preparo - normalmente junto comigo durante a noite. O Alessandro seguia basicamente a mesma linha da malto, sem muita sofisticação.
Já o Foschini tinha sua opinião a respeito da malto. Lembro-me de sua mensagem de otimismo num email endereçado a mim dias antes de nossa prova:
- Espero que essa porra de maltodextrina embrulhe direitinho o seu estômago. Aquilo é uma gororoba... (vou parar os elogios por aqui).
Sua linha de alimentação baseava-se em suspiros feitos pela (Santa) Mara, pêssegos em calda, alguns doces ou biscoitos diversos e, muito ocasionalmente aqui ou acolá - um pouco de malto. Logo, para ele não havia tanta necessidade de gelo.
Um nadador mal alimentado pode incorrer em uma de três situações, quando submetido a esforços prolongados como seria o nosso caso: 1- ele perde força e seu estilo não rende ou 2- ele começa a sentir muito frio devido ao fato de seu corpo não gerar calor suficiente a ponto de sair da água ou 3- ambas as descrições anteriores. Some-se a isso o fato de não conseguirmos dormir o suficiente e a confusão está armada.
Em cada pernoite nas cidades, minha preocupação com a disponibilidade do gelo era constante. Tivemos o gelo que precisávamos em 3 das 4 cidades de pernoite. A cidade que não conseguiu a quantidade solicitada nos arrumou uns punhados de última hora que foram minimamente suficientes para aquele dia - por sorte, o menor trajeto dos quatro dias.
Paradoxalmente, posso afirmar: "Dado o calor reinante na região, sem gelo, aquilo seria uma fria..."


sábado, 27 de outubro de 2012

Cap.8 - Um primeiro dia de fortes emoções

Logo após a largada, já estávamos esperando encontrar as regiões mais turbulentas do rio.
Em poucos minutos, chegamos a Caçamba. Eu estava ligeiramente à frente do grupo e fui o primeiro a entrar e sair da primeira leva de redemoinhos.
Nadei forte, bati muita perna e não deixei os pés afundarem, quando puxados para baixo. É uma sensação forte e desagradável saber que há algo ali embaixo da água que conspira contra você. Trata-se de um inimigo invisível, com força nada desprezível, em direção ao qual você se dirige, sem poder evitá-lo. Mas felizmente a forte emoção se vai rapidamente ao passar pela turbulenta região com a ajuda da correnteza.
Não parei de nadar, apenas reduzi o ritmo. O pior ainda estava por vir - a segunda região, chamada de Mateus - apresenta redemoinhos mais fortes e eu tinha que estar preparado. Os barcos ficaram um pouco para trás para acompanhar os demais nadadores.
De vez em quando eu olhava para trás para tentar identificar como estavam meus companheiros, mas percebi que estavam no meio de suas batalhas.
Como disse o Alessandro, ao final do dia:
- Deus me livre! Se eu tivesse passado uma primeira vez ali para conhecer a região eu não teria voltado nunca mais. É a mesma coisa que nadar dentro de um liquidificador!
A região do Mateus estava se aproximando. O barco dos bombeiros ficou pra trás para ajudar meus colegas, o Carlinhos se aproximou de mim antes de eu entrar no Mateus. Conforme previsto, ali a briga foi mais feia e cansativa, mas consegui passar e parei de nadar logo em seguida, para esperar meus companheiros. Mesmo sem nadar, aquela região, que é rica em corredeiras, lhe propicia uma velocidade de deslocamento bastante agradável.
O pessoal não chegava e comecei a estranhar. Afinal, eu não estava nadando forte neste início de prova - havíamos combinado dessa maneira - somente nos desgarraríamos após estarmos seguros de que todos haviam passado bem por ali. Depois de alguns minutos, o Carlinhos voltou e me contou o que havia acontecido: as dificuldades não foram poucas naquele trecho. O próprio Foschini - nadador experiente como é - ficou circulando num redemoinho que deixou os bombeiros em estado de alerta. Estes me contaram mais tarde que estavam a ponto de pular na água para retirá-lo dali, mas no final o nadador conseguiu se desvencilhar e seguir em frente.
Passado o susto inicial, seguimos nadando. Eu estava um pouco à frente, esperando que o Foschini se juntasse a mim - assim havíamos combinado. Mas, por razões que desconhecia no momento, ele resolveu ficar nadando no grupo de trás por um bom tempo, diferente do combinado entre nós.
Com a ajuda da correnteza, nadei cerca de 8 km na primeira hora. Este resultado era incrível - quase duas vezes minha melhor marca em piscina! Se conseguíssemos manter esse ritmo, terminaríamos o primeiro dia em menos de seis horas, o que, obviamente, era um sonho impossível.
Mas cabeça de engenheiro gosta de fazer contas - isso é inevitável!
O tempo foi passando e a correnteza foi se reduzindo. O rio aos poucos começava a ganhar largura e, assim, a vazão era diluída e passava a nos empurrar cada vez menos. Aos poucos percebia que o Foschini e eu nos alternávamos na ponta da prova. Não havia competição ali - cada um tinha o seu ritmo de prova e isso gerou algumas das diferenças de desempenho - nada além disso.
No meio do caminho ainda passávamos por várias regiões onde se sentiam turbulências parecidas com os redemoinhos recém-vencidos. Eram de menor intensidade, mas como dito pelo Alessandro:
- Cada vez que eu passava por elas, eu tremia todo só de lembrar daquilo. Era muito ruim!
Depois de uns quinze ou vinte quilômetros, travamos contato com aqueles que seriam nossos maiores inimigos em nossa empreitada: os maretões.
Maretões são ondas formadas pelo vento, que sopra sempre do mar para o interior - isto é, sempre contrárias ao nadador - que começam como uma leve tremulação da superfície da água e terminam como ondas de mais de meio metro de altura, que atrapalham - e bastante - os nadadores. Nadar contra ondas desequilibra o nadador e exige do mesmo esforços grandes em suas articulações - em especial dos ombros - o que pode comprometer o sucesso de nosso projeto. Afinal, eu treinei sem vento e sem marolas e agora a realidade era outra. Seria possível completar naquelas condições?
Eu apanhei bastante daquelas ondas. Na verdade, eu era péssimo para nadar em condições assim adversas - já havia tentado aprender antes e não me dava bem. Somente consegui me superar nesta técnica no terceiro dia, como explicarei mais adiante.
Este trecho final foi bastante demandante e cansativo. Cerca de metade dos 45 km foram sob os efeitos dos maretões. Não foi fácil. As ondas nos impediam de ver os colegas na água e isso ajudou a nos distanciar no rio. O Carlinhos ficava um pouco comigo e um pouco com o Foschini. Os bombeiros ficaram o tempo todo com os demais.
Após 6 horas e quarenta minutos, chegamos à cidade de Pão de Açúcar. A cidade leva esse nome por que tem um morro à beira do rio de forma levemente arredondada, que relembra (muito remotamente) o seu irmão carioca de mesmo nome. Para economizar, o pessoal dali resolveu colocar uma estátua do Cristo Redentor (bem menor em tamanho) em cima do Pão de Açúcar mesmo - afinal, eles não tinham um corcovado sobrando na região...

A chegada foi algo quase como um filme de terror. Já cansado, eu buscava me aproximar da margem, onde o barco atracara. No leito do rio, que ali era bem mais raso, se apresentavam algumas formas vegetais muito estranhas em forma e, principalmente em textura. Eram espécies de algas, típicas da região, que se formavam no fundo do rio, cresciam e algumas estouravam, liberando ramificações que insistiam em roçá-lo, gerando uma sensação muito desagradável. Elas ficavam praticamente imóveis, dando a impressão de serem rígidas e firmes, mas eram moles como folhas. Eu não ousava tocá-las, por serem demais repugnantes, mas quanto mais me aproximava da margem, mais elas se adensavam e não me davam espaço para minhas braçadas.
À beira do rio, um representante da prefeitura nos recebeu e uma dúzia de moleques fugidos da escola apareceram para saber o que estava acontecendo. Dali iríamos para a pousada, para descansar. Esperamos a chegada de todos, nos despedimos do Carlinhos com muito pesar, pois ele conhecia muito bem o rio e não nos acompanharia mais daquele ponto em diante. Ele aproveitou a claridade do dia e subiu ligeiro em sua voadeira de volta para Piranhas para dar as boas novas na cidade:
- Eles conseguiram vencer a primeira etapa - todos eles, incluindo ali o Tarzan do Cangaço.
Novas emoções ainda estavam por vir naquela noite!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Cap.7 - O grande dia. Dia de São Francisco!

Era 4 de outubro de 2011. Dia do padroeiro do Rio e momento mais que apropriado para comemorarmos, na região, os 510 anos do descobrimento do Rio São Francisco. As cidades ribeirinhas celebram intensamente a data, pois o Rio lhes traz boa parte de suas esperanças: na pesca, no abastecimento de água ou na paisagem deslumbrante que se forma.
Agendamos para largar às sete da manhã. Um pequeno grupo de - cerca de três - caiaqueiros nos acompanharia em nosso primeiro dia. Seu desejo - bem como o nosso - era de largar antes das seis da manhã, mas as festividades na cidade e a presença da população e os discursos das autoridades políticas nos obrigaram a postergar ligeiramente o horário de largada.
Isto representaria um esforço maior, pois sabíamos que encontraríamos os maretões - grandes ondas contrárias ao nadador que se formam pela ação dos ventos fortes da região - mas estávamos lá para o que desse e viesse.
Ao chegar à beira do rio, percebi que seu nível estava sensivelmente mais baixo que no dia anterior - algo plenamente previsível devido ao fato de Xingó reduzir sua produção durante a madrugada - horário de menor consumo de energia. Isto queria dizer uma coisa: os redemoinhos que encontrei no dia anterior no final da tarde com o rio cheio estariam mais fortes naquela manhã. Avisei meus colegas de nado a  respeito e pedi-lhes muita atenção na região.

Os quatro nadadores e as autoridades de Piranhas que nos ajudaram em nossos esforços no dia da largada.

Uma hora antes da largada, um senhor da região veio nos procurar para pedir permissão para que seu sobrinho nadasse uma parte do trajeto conosco. Aquele tinha sido um sonho em sua vida - poder nadar uma grande extensão do rio - e ele gostaria de tentar.
Obviamente ficamos muito receosos, mas aceitamos sua participação desde que ele consentisse com nossas recomendações de segurança: nadar sempre junto ao barco dos Bombeiros e parar, quando sentisse que estava cansado. Não podíamos correr riscos. Rodrigo, como era seu nome, tinha cerca de 18 anos, um perfil bem atarracado, similar ao de maratonistas aquáticos e foi rapidamente apelidado de Tarzan do Cangaço. Conhecia muito bem o rio e deu grandes contribuições ao grupo.
Largamos por volta das 7:30h. A Marinha estava presente, bem como o Corpo de Bombeiros do Estado de Alagoas além do barco de apoio pilotado pelo Carlinhos. A estratégia ficou combinada entre todos os participantes da seguinte maneira:
1. começaríamos num ritmo maneiro de modo a passar por Caçamba e Mateus com segurança
2. após esta região, o Foschini e eu poderíamos nadar um pouco à frente enquanto os demais viriam logo atrás, num ritmo possivelmente mais lento
3. não era objetivo de ninguém chegar na frente de ninguém. Nosso objetivo era muito mais simples: chegar a Pão de Açúcar, a próxima cidade em nosso mapa, distante cerca de 45 Km rio abaixo.

O primeiro mergulho: o início de uma grande aventura!

Percebam que o Tarzan do Cangaço não usava óculos nem mesmo touca de natação. Ele não sabia o que era maltodextrina, não passou vaselina nas articulações e saiu assim, na raça, de sua cidade natal. Óbvio que, ao longo da travessia, nós o fomos convertendo aos princípios modernos da natação. Eu costumo dizer que "nós o estragamos" um pouco. Mas é fato que, poucas horas após a largada, suas axilas estavam assando, ele estava morrendo de fome e o sol já o estava incomodando um pouco - muito menos que a todos nós, mas ele também sentia a forte insolação da região.