Quando era jovem (lá pelos meus 18 ou 20 anos) e participava de uma comunidade na igreja, o Padre Paulo comentou num sermão sobre o que ele chamou de oitavo sacramento. Tratava-se da ignorância.
Obviamente ele não estava pregando para que fôssemos ignorantes; ele apenas nos lembrava que, por vezes por nossa ignorância (não no sentido pejorativo da palavra, mas no sentido de desconhecimento de fatos) não poderíamos ser julgados como não cumpridores da palavra de Deus. Ele se referia aos indígenas, por exemplo, que pouco ou nada conheciam dos sete sacramentos e, por isso, não poderiam ser julgados por não respeitarem as leis da igreja.
No caso dos redemoinhos do Rio São Francisco, eu queria saber. Eu precisava conhecer. Minha ignorância me incomodava. Não iria sossegar enquanto não passasse a limpo esta dúvida: o redemoinho estaria mais forte ou mais fraco com o aumento do fluxo e do nível do rio?
Ainda na véspera de nossa largada, após um bom almoço e um breve intervalo de digestão, fui até a beira do rio e busquei nosso inigualável barqueiro de apoio de Piranhas - o Carlinhos, já mencionado em posts anteriores. Pedi-lhe que me acompanhasse com seu barco enquanto eu nadava os primeiros quilômetros de nossa travessia para testar o ambiente mais uma vez. Expliquei-lhe a minha preocupação e solicitei-lhe que ficasse atento aos acontecimentos.
Eu estava muito tranquilo e dono de mim. Estava em boa forma física e muito bem preparado - corpo e cabeça - para aquele projeto.
Vejam uma foto do ambiente na região de Caçamba, onde os redemoinhos são mais fracos:
As perturbações que se veem na superfície da água são um tanto traiçoeiras e assustam - mais do que representam um real perigo - aos nadadores. É importante estar preparado para não perder o controle ou entrar em desespero na hora.
Entrei sozinho para nadar na companhia de meu fiel escudeiro Carlinhos e lá fomos nós! Chegando próximo ao Caçamba (a primeira região de redemoinhos), ele me avisou:
- Começa por ali. Vai firme que eu estou por aqui.
Entrei nadando com vigor. São inúmeros redemoinhos que se formam, um ao lado do outro, que não permitem muita escolha de trajeto. Você sai de um e entra no outro. Isto acontece por dezenas de segundos - não chega a um minuto - até você conseguir sair da primeira região. Fiquei contente pelo que senti - a turbulência estava sensivelmente menor, sinal de que a hipótese 2 (maior o nível, menor o estrangulamento do rio e menores as turbulências) era mais apropriada.
Fomos até o Mateus (a segunda região de redemoinhos) e o mesmo se passou. Fiquei tranquilo. Agora eu já poderia voltar para o alojamento e compartilhar a experiência com meus companheiros de Travessia.
Mas voltando ao oitavo sacramento - o da ignorância - eu fiquei feliz em saber alguns dias APÓS nossa passagem pela região, que existe um cemitério logo ali, a jusante de Caçamba e Mateus do lado alagoano, para os incautos e inexperientes que se atreveram pela região sem o devido preparo.
É a Santa Ignorância, nos ajudando sempre!
Cinco destemidos nadadores encaram o desafio de nadar 170 km no Rio São Francisco, entre os estados de Alagoas e Sergipe. Sem se deixar esmorecer pelos fortes redemoinhos e pelas altas ondas provocadas pelo vento terral, eles têm boas histórias para contar. Em meio a um povo humilde e hospitaleiro, marcado por uma forte diferença social eles cumprem seu objetivo: evidenciar a necessidade de preservação do rio e de seu ecossistema. Embarque nesta aventura!
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segunda-feira, 22 de outubro de 2012
domingo, 21 de outubro de 2012
Cap.5 - O início da superação
Todo projeto tem um início, um meio e um fim. Estávamos iniciando nossa viagem de Maceió para Piranhas. Acordamos cedo naquela manhã de segunda-feira. Comemos rapidamente algo só para enganar a fome e o táxi estava nos esperando.
A logística havia sido preparada de última hora - conforme já explicado - e o acertado foi que o Foschini sairia com os bombeiros cedo, ainda de madrugada e os demais - três nadadores e um acompanhante - iríamos de táxi até Piranhas.
O táxi era um Siena e foi possível realizar a viagem com alguma bagagem leve no porta-malas - o pesado estava sendo transportado pelos bombeiros - e cinco marmanjos dentro.
No meio do caminho foi possível acompanhar como a região vai se tornando cada vez mais árida e, por consequência, cada vez mais pobre. A qualidade das estradas não era ruim, mas tratava-se de vias de pistas simples, onde o perigo era iminente.
Mas como todo desafio tem sua parte difícil, esta viagem não podia ser diferente. O taxista colocava um pagode pra tocar que não dava pra aguentar. Posso dizer que foi realmente muito extenuante chegar, quase um calvário! De vez em nunca ele alterava a programação e colocava uma musiquinha Gospel - só para variar! Puxa, aquilo foi realmente difícil!
- O que é que a gente não faz para buscar os nossos sonhos? - pensava com meus botões, enquanto a musiquinha não parava de tocar...
Ao chegar em Piranhas, fizemos uma vaquinha para pagar o taxista e tomamos o cuidado de pegar o recibo para reembolso da viagem pela prefeitura de Piranhas, o que nunca aconteceu. Ficamos no preju, mas vai fazer o quê? Este é o Brasil que vivemos!
O taxista ficou tão impressionado com nossa história que fez questão de tirar uma foto junto ao grupo ali na cidade. Ele dizia que, quando ficássemos famosos e fôssemos vistos na televisão, ele contaria aos amigos que nos conheceu e ainda participou do desafio junto conosco. Eu só esqueci de pedir-lhe um desconto pela insalubridade acústica de seu táxi. Mas fizemos uma boa amizade!
Nossa intenção era ficar na pousada de propriedade de Dona Dione (veja sua simpatia na foto abaixo) à beira do rio, no local exato de nossa partida, mas a Prefeitura de Piranhas nos acomodou num alojamento da CHESF, que ficava a alguns quilômetros do local. Felizmente ela disponibilizou uma van para traslados locais e fomos muito bem atendidos neste sentido.
A viagem foi extenuante e meus colegas de viagem queriam dormir para estarem descansados no dia seguinte. Eu queria percorrer os primeiros quilômetros novamente nadando, para sentir a influência dos redemoinhos na região.
Eu conversava com os técnicos da CHESF e eles já haviam me adiantado que houvera uma pane num subsistema da Região Sudeste e que a Usina de Xingó estava trabalhando acima de seu volume esperado para compensar a falta. De fato, quando chegamos à cidade, percebi que o nível do Rio São Francisco estava bem mais alto - mais de um metro acima do que havíamos testemunhado há dois meses.
Acompanhem o raciocínio, com a ajuda da foto abaixo:
A foto acima foi tirada dois meses antes do início de nossa Travessia. Na véspera de nossa largada, a pedra à esquerda (a mais alta) mostrada na foto acima estava quase totalmente coberta pela água, sinal de que o nível do rio havia subido consideravelmente.
Eu queria entender de que forma a maior vazão influenciaria nos redemoinhos - pensava noite e dia na segurança da prova. Passar por aquelas duas primeiras regiões de redemoinhos - chamadas de Caçamba e Mateus - era uma condição muito importante para garantir esta segurança. Por já haver nadado ali em regime de reconhecimento da região dois meses antes, eu me sentia um pouco responsável por orientar os demais componentes do grupo que ainda não haviam tido a mesma oportunidade.
Quando eu comentava:
- Pessoal, a vazão aumentou dos 1700m3/seg para 2400m3/seg, devido à maior geração de energia por Xingó"
estes números não faziam muita diferença para o grupo. O importante no momento era saber como deveríamos nos comportar na manhã do dia seguinte - e isso nem eu mesmo sabia ao certo.
Minha cabeça trabalhava com duas hipóteses que deveriam ser testadas. Eu só poderia ter certeza se as testasse, nadando por ali mais uma vez antes de nossa largada. Perguntava-me o que ocorreria com os redemoinhos com a vazão e o nível aumentados. Eles aumentariam (por que a vazão é maior, logo a força do rio também é) ou diminuiriam (pois o nível do rio ficou mais alto e houve menor estrangulamento da calha do rio e, consequentemente, menos corredeiras e menos turbulências)?
O pessoal técnico da CHESF não sabia me responder ao certo. Só me diziam para tomar cuidado, pois havia trechos medidos na região com mais de cinquenta metros de profundidade - alguns arriscavam até noventa metros!
A profundidade não é um fator determinante para nadadores - afinal, ficamos apenas na superfície da água. O que realmente nos impressionava naquele rio eram as formações subaquáticas - tratava-se de um enorme e profundo desfiladeiro, onde o fundo irregular rapidamente surgia das profundezas para marcar sua presença na superfície como se fossem inocentes pedras, mas que representam enormes picos que distrocem os retilíneos caminhos das águas (conhecidos em Mecânica dos Fluidos por fluxos laminares) e os transformam em corredeiras rápidas (devido ao abrupo estrangulamento) ou grandes redemoinhos, quando seu movimento se torna circular próximo à superfície.
Para aumentar ainda mais o nível de ansiedade, eu sabia que Matthew Webb, o primeiro nadador que cruzou o Canal da Mancha a nado sem a ajuda de equipamentos ou roupas especiais, havia perdido a vida tentando vencer um enorme redemoinho no Rio Niagara, logo após as cataratas de mesmo nome. Qual das duas hipóteses se mostrou verdadeira? Esta resposta eu deixo para o meu próximo post.
Como diziam naqueles seriados antigos de TV: "Não percam!"
A logística havia sido preparada de última hora - conforme já explicado - e o acertado foi que o Foschini sairia com os bombeiros cedo, ainda de madrugada e os demais - três nadadores e um acompanhante - iríamos de táxi até Piranhas.
O táxi era um Siena e foi possível realizar a viagem com alguma bagagem leve no porta-malas - o pesado estava sendo transportado pelos bombeiros - e cinco marmanjos dentro.
No meio do caminho foi possível acompanhar como a região vai se tornando cada vez mais árida e, por consequência, cada vez mais pobre. A qualidade das estradas não era ruim, mas tratava-se de vias de pistas simples, onde o perigo era iminente.
Mas como todo desafio tem sua parte difícil, esta viagem não podia ser diferente. O taxista colocava um pagode pra tocar que não dava pra aguentar. Posso dizer que foi realmente muito extenuante chegar, quase um calvário! De vez em nunca ele alterava a programação e colocava uma musiquinha Gospel - só para variar! Puxa, aquilo foi realmente difícil!
- O que é que a gente não faz para buscar os nossos sonhos? - pensava com meus botões, enquanto a musiquinha não parava de tocar...
Ao chegar em Piranhas, fizemos uma vaquinha para pagar o taxista e tomamos o cuidado de pegar o recibo para reembolso da viagem pela prefeitura de Piranhas, o que nunca aconteceu. Ficamos no preju, mas vai fazer o quê? Este é o Brasil que vivemos!
O taxista ficou tão impressionado com nossa história que fez questão de tirar uma foto junto ao grupo ali na cidade. Ele dizia que, quando ficássemos famosos e fôssemos vistos na televisão, ele contaria aos amigos que nos conheceu e ainda participou do desafio junto conosco. Eu só esqueci de pedir-lhe um desconto pela insalubridade acústica de seu táxi. Mas fizemos uma boa amizade!
Nossa intenção era ficar na pousada de propriedade de Dona Dione (veja sua simpatia na foto abaixo) à beira do rio, no local exato de nossa partida, mas a Prefeitura de Piranhas nos acomodou num alojamento da CHESF, que ficava a alguns quilômetros do local. Felizmente ela disponibilizou uma van para traslados locais e fomos muito bem atendidos neste sentido.
A viagem foi extenuante e meus colegas de viagem queriam dormir para estarem descansados no dia seguinte. Eu queria percorrer os primeiros quilômetros novamente nadando, para sentir a influência dos redemoinhos na região.
Eu conversava com os técnicos da CHESF e eles já haviam me adiantado que houvera uma pane num subsistema da Região Sudeste e que a Usina de Xingó estava trabalhando acima de seu volume esperado para compensar a falta. De fato, quando chegamos à cidade, percebi que o nível do Rio São Francisco estava bem mais alto - mais de um metro acima do que havíamos testemunhado há dois meses.
Acompanhem o raciocínio, com a ajuda da foto abaixo:
A foto acima foi tirada dois meses antes do início de nossa Travessia. Na véspera de nossa largada, a pedra à esquerda (a mais alta) mostrada na foto acima estava quase totalmente coberta pela água, sinal de que o nível do rio havia subido consideravelmente.
Eu queria entender de que forma a maior vazão influenciaria nos redemoinhos - pensava noite e dia na segurança da prova. Passar por aquelas duas primeiras regiões de redemoinhos - chamadas de Caçamba e Mateus - era uma condição muito importante para garantir esta segurança. Por já haver nadado ali em regime de reconhecimento da região dois meses antes, eu me sentia um pouco responsável por orientar os demais componentes do grupo que ainda não haviam tido a mesma oportunidade.
Quando eu comentava:
- Pessoal, a vazão aumentou dos 1700m3/seg para 2400m3/seg, devido à maior geração de energia por Xingó"
estes números não faziam muita diferença para o grupo. O importante no momento era saber como deveríamos nos comportar na manhã do dia seguinte - e isso nem eu mesmo sabia ao certo.
Minha cabeça trabalhava com duas hipóteses que deveriam ser testadas. Eu só poderia ter certeza se as testasse, nadando por ali mais uma vez antes de nossa largada. Perguntava-me o que ocorreria com os redemoinhos com a vazão e o nível aumentados. Eles aumentariam (por que a vazão é maior, logo a força do rio também é) ou diminuiriam (pois o nível do rio ficou mais alto e houve menor estrangulamento da calha do rio e, consequentemente, menos corredeiras e menos turbulências)?
O pessoal técnico da CHESF não sabia me responder ao certo. Só me diziam para tomar cuidado, pois havia trechos medidos na região com mais de cinquenta metros de profundidade - alguns arriscavam até noventa metros!
A profundidade não é um fator determinante para nadadores - afinal, ficamos apenas na superfície da água. O que realmente nos impressionava naquele rio eram as formações subaquáticas - tratava-se de um enorme e profundo desfiladeiro, onde o fundo irregular rapidamente surgia das profundezas para marcar sua presença na superfície como se fossem inocentes pedras, mas que representam enormes picos que distrocem os retilíneos caminhos das águas (conhecidos em Mecânica dos Fluidos por fluxos laminares) e os transformam em corredeiras rápidas (devido ao abrupo estrangulamento) ou grandes redemoinhos, quando seu movimento se torna circular próximo à superfície.
Para aumentar ainda mais o nível de ansiedade, eu sabia que Matthew Webb, o primeiro nadador que cruzou o Canal da Mancha a nado sem a ajuda de equipamentos ou roupas especiais, havia perdido a vida tentando vencer um enorme redemoinho no Rio Niagara, logo após as cataratas de mesmo nome. Qual das duas hipóteses se mostrou verdadeira? Esta resposta eu deixo para o meu próximo post.
Como diziam naqueles seriados antigos de TV: "Não percam!"
sábado, 20 de outubro de 2012
Cap.4 - O efeito Big Brother
Estávamos na véspera de nosso traslado de Maceió para Piranhas. Os desgastes da perda do Niltão e da confusão de última hora para organizar o transporte preconizavam os dias turbulentos que teríamos pela frente. O que acontecia era que havia duas visões diferentes sobre uma travessia daquele porte.
Para mim, não poderia haver surpresas, pois é o desconhecido que sempre te atrapalha lá na frente. Eu fazia questão de antecipar tudo, de prever o que fosse possível, de modo a evitar o inesperado. Isto faz parte de minha formação anterior. Aprendi muito com minha Travessia do Canal da Mancha e sabia que não se pode dar moleza para o imprevisto.
Neste ponto nossos estilos - meu e do Foschini - eram distintos. Não quero dizer que meu companheiro não planejava os eventos - pelo contrário, acho que ele se empenhou, e muito, na consecução de nossos objetivos. No entanto, em algumas situações eu esperava mais e, nestas horas, eu ouvia um "Na hora a gente vê o que faz" que me deixava bastante preocupado.
Pois aquela fatídica e desgastante noite foi a primeira amostra desta diferença de estilos. No caminho de volta do hotel, onde deixamos Niltão e Santa Cristina, para a casa do Foschini, iniciamos uma discussão sobre o projeto, onde eu afirmei algo do tipo:
- Vamos até o final com este projeto, mas O MODELO no qual ele foi concebido - onde dependemos demasiadamente das prefeituras locais e, por isso, levamos um cano após o outro - não é o modelo por mim preferido. Eu não farei outros projetos dentro deste modelo. Eu prefiro o padrão da 14 Bis, onde entra um patrocínio (no caso, de nossos valorosos amigos da Praticagem de Santos) além de outras organizações de respeito e garantimos uma boa parte de nosso sucesso.
Pronto! Ao manifestar esta opinião, a confusão estava armada. O Foschini tomou isso como uma questão pessoal e entendeu tudo como uma crítica a ele e não ao modelo de organização. Ao chegar em sua casa, ele acordou o Fabio e o Alessandro, que já dormiam confortavelmente para o dia seguinte e fizemos a reunião mais desgastante de nosso projeto.
O desgaste foi ele ter levado o foco da discussão em torno das pessoas, e não do modelo. O Foschini estava bastante transtornado e falava tão alto que até a Lua - o peixe-boi que nadava a quilômetros dali - poderia ouvir. O desânimo na equipe ficou evidente. De seu lado, ele passou a criticar fortemente o modelo da 14 Bis e, pior, criticar as pessoas - nominalmente - que a organizavam. Ouvi críticas horrorosas a gente tão bem intencionada que são aqui impublicáveis.
Como consequência de minha posição quanto ao MODELO de prova adotado no Velho Chico, o Foschini sentiu-se na obrigação de dizer que também não faria mais a 14 Bis.
- Azar seu - declarei - pois a 14 Bis é uma bela prova e você sabe disso!
Como contrapartida, houve insinuações da parte dele que eu deveria abandonar o projeto. Naquela altura do campeonato, depois de todo o desgaste incorrido, depois de todo o investimento feito e depois das centenas de quilômetros nadados com seriedade e empenho? Certamente que não. Por absoluta aderência à minha declaração inicial de "Vamos até o final com este projeto, mas é o primeiro e último neste modelo", manter esta posição foi a melhor coisa que fiz, não somente para mim, como para todo o projeto, como veremos mais adiante.
Afinal como disse o próprio Foschini: "Quem não se empenhar e treinar seriamente não vai conseguir terminar a prova." - o sentimento de terminar a prova era uma questão de honra. Nadar defendendo uma causa sócio-ambiental é muito bom, mas fazê-lo terminando a prova é muito melhor! Quem é nadador sabe disso. Como eu havia treinado e me empenhado seriamente eu não deixaria essa oportunidade passar. Até por que eu só teria uma chance - naquele ano!
O Alessandro chegou a se manifestar certa vez, muito antes desta confusão, que: "o Percival era o líder intelectual (de planejamento) do grupo enquanto o Foschini seria seu líder emocional, seu coração." - esta frase está relatada em um post neste blog, pouco antes da travessia. Apesar de bem intencionada, sua declaração não foi aceita pelo dito "coração" e só piorou as coisas naquela fatídica noite. Nem mesmo este simples blog se livrou de críticas e agressões verbais, coitadinho. Só quem esteve lá para ver.
A reconciliação veio somente após alguns dias, quando, ambos já com as cabeças mais frias, eu lhe convidei a deixar as diferenças de lado e participar da 14 Bis. Espero que ele, realmente, volte. Se quiser ajudar na organização, melhor ainda - será sempre bem-vindo.
"O esporte deve agregar." São estas as sábias palavras de um grande mestre da natação e amigo próximo. Naquela ocasião e em várias outras ao longo do projeto, passamos por espasmos de manifestações pouco esportivas que, ao final, foram todas apaziguadas com o sucesso do projeto.
Em resumo, fomos do céu ao inferno em poucas horas.
Mas é como dizem: quando começa mal, pode terminar bem. E assim foi.
Para mim, não poderia haver surpresas, pois é o desconhecido que sempre te atrapalha lá na frente. Eu fazia questão de antecipar tudo, de prever o que fosse possível, de modo a evitar o inesperado. Isto faz parte de minha formação anterior. Aprendi muito com minha Travessia do Canal da Mancha e sabia que não se pode dar moleza para o imprevisto.
Neste ponto nossos estilos - meu e do Foschini - eram distintos. Não quero dizer que meu companheiro não planejava os eventos - pelo contrário, acho que ele se empenhou, e muito, na consecução de nossos objetivos. No entanto, em algumas situações eu esperava mais e, nestas horas, eu ouvia um "Na hora a gente vê o que faz" que me deixava bastante preocupado.
Pois aquela fatídica e desgastante noite foi a primeira amostra desta diferença de estilos. No caminho de volta do hotel, onde deixamos Niltão e Santa Cristina, para a casa do Foschini, iniciamos uma discussão sobre o projeto, onde eu afirmei algo do tipo:
- Vamos até o final com este projeto, mas O MODELO no qual ele foi concebido - onde dependemos demasiadamente das prefeituras locais e, por isso, levamos um cano após o outro - não é o modelo por mim preferido. Eu não farei outros projetos dentro deste modelo. Eu prefiro o padrão da 14 Bis, onde entra um patrocínio (no caso, de nossos valorosos amigos da Praticagem de Santos) além de outras organizações de respeito e garantimos uma boa parte de nosso sucesso.
Pronto! Ao manifestar esta opinião, a confusão estava armada. O Foschini tomou isso como uma questão pessoal e entendeu tudo como uma crítica a ele e não ao modelo de organização. Ao chegar em sua casa, ele acordou o Fabio e o Alessandro, que já dormiam confortavelmente para o dia seguinte e fizemos a reunião mais desgastante de nosso projeto.
O desgaste foi ele ter levado o foco da discussão em torno das pessoas, e não do modelo. O Foschini estava bastante transtornado e falava tão alto que até a Lua - o peixe-boi que nadava a quilômetros dali - poderia ouvir. O desânimo na equipe ficou evidente. De seu lado, ele passou a criticar fortemente o modelo da 14 Bis e, pior, criticar as pessoas - nominalmente - que a organizavam. Ouvi críticas horrorosas a gente tão bem intencionada que são aqui impublicáveis.
Como consequência de minha posição quanto ao MODELO de prova adotado no Velho Chico, o Foschini sentiu-se na obrigação de dizer que também não faria mais a 14 Bis.
- Azar seu - declarei - pois a 14 Bis é uma bela prova e você sabe disso!
Como contrapartida, houve insinuações da parte dele que eu deveria abandonar o projeto. Naquela altura do campeonato, depois de todo o desgaste incorrido, depois de todo o investimento feito e depois das centenas de quilômetros nadados com seriedade e empenho? Certamente que não. Por absoluta aderência à minha declaração inicial de "Vamos até o final com este projeto, mas é o primeiro e último neste modelo", manter esta posição foi a melhor coisa que fiz, não somente para mim, como para todo o projeto, como veremos mais adiante.
Afinal como disse o próprio Foschini: "Quem não se empenhar e treinar seriamente não vai conseguir terminar a prova." - o sentimento de terminar a prova era uma questão de honra. Nadar defendendo uma causa sócio-ambiental é muito bom, mas fazê-lo terminando a prova é muito melhor! Quem é nadador sabe disso. Como eu havia treinado e me empenhado seriamente eu não deixaria essa oportunidade passar. Até por que eu só teria uma chance - naquele ano!
O Alessandro chegou a se manifestar certa vez, muito antes desta confusão, que: "o Percival era o líder intelectual (de planejamento) do grupo enquanto o Foschini seria seu líder emocional, seu coração." - esta frase está relatada em um post neste blog, pouco antes da travessia. Apesar de bem intencionada, sua declaração não foi aceita pelo dito "coração" e só piorou as coisas naquela fatídica noite. Nem mesmo este simples blog se livrou de críticas e agressões verbais, coitadinho. Só quem esteve lá para ver.
A reconciliação veio somente após alguns dias, quando, ambos já com as cabeças mais frias, eu lhe convidei a deixar as diferenças de lado e participar da 14 Bis. Espero que ele, realmente, volte. Se quiser ajudar na organização, melhor ainda - será sempre bem-vindo.
"O esporte deve agregar." São estas as sábias palavras de um grande mestre da natação e amigo próximo. Naquela ocasião e em várias outras ao longo do projeto, passamos por espasmos de manifestações pouco esportivas que, ao final, foram todas apaziguadas com o sucesso do projeto.
Em resumo, fomos do céu ao inferno em poucas horas.
Mas é como dizem: quando começa mal, pode terminar bem. E assim foi.
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Cap.3 - Uma grande alegria e uma perda ainda maior
Lá para os meados de setembro - poucas semanas antes de nossa Travessia - tivemos uma grata surpresa: o Niltão, companheiro de inúmeros anos de travessias e nosso barqueiro indispensável na Travessia 14 Bis, programou uma viagem para Alagoas com sua esposa - a Santa Cristina (depois eu explico o qualificador "Santa") - para conhecer a região e, de quebra, nos acompanhar como barqueiro em nosso projeto.
Aquilo foi um empurrão e tanto. Em primeiro lugar, por que pro Niltão não tem mau tempo nunca. Ele é uma pessoa que, com seu entusiasmo, consegue incendiar o grupo e levantar a moral de todos seus componentes. Imediatamente começamos a expandir nossos planos para a prova: eu busquei um serviço de transmissão de imagens ao vivo pela internet (Livestream), contratei um baita plano de banda larga para transmissão em tempo real, fizemos testes de funcionamento do sistema, discutimos as rotinas diárias de acompanhamento dos atletas - enfim, estávamos trabalhando a todo vapor para assegurar a experiência mais agradável possível nas duras horas que teríamos pela frente.
O Niltão não somente seria capaz de orientar os recursos em terra para a consecução de nossos objetivos, ele teria a condição de guiar, como ninguém, os barcos de apoio durante a prova assim como agregar novas funções ao grupo (como a filmagem e transmissão ao vivo). Isto sem contar o seu voto de confiança a um grupo do qual ele conhecia apenas a mim e ao Foschini com maior proximidade.
Posso dizer que, com seus 110 Kg de simpatia, o Niltão seria uma presença DE PESO no grupo.
Assim aconteceu de nos encontrarmos já em Alagoas para um almoço na véspera de nosso traslado até a cidade de Piranhas. Estávamos reunidos na casa do Foschini, onde a Santa Mara Foschini (depois eu explico também este qualificador "Santa") nos ofereceu uma recepção calorosa e inesquecível.
Se o Foschini nadasse tudo o que a Mara cozinha, ele seria um Michael Phelps da terceira idade. Rsrs
Até então estávamos preocupados com os aparatos para uma travessia deste porte: alimentos para os atletas (sobre os quais não havia consenso do grupo - cada um tinha seu cardápio e não havia jeito de unificar as posições a respeito), acondicionamento e manutenção dos alimentos (eu mesmo levei uma grande sacola térmica que foi indispensável para manter a malto numa temperatura agradável), alimentação para a equipe de apoio nos barcos, sinalizadores de emergência, lâmpadas químicas para nado noturno, lanterna de alta potência, rádios comunicadores, protetor solar, etc. Isto sem contar com os aparatos tecnológicos para transmissão ao vivo do evento. Eu não queria contar com a sorte - afinal, esperávamos que os bombeiros que nos acompanhassem apresentassem alguns destes recursos - essenciais para a segurança do nadador. Mas minha decisão de investir nestes itens foi acertada - não havia recursos disponíveis no local e tudo o que foi previsto foi absolutamente essencial para garantir a segurança e, por consequência, o sucesso de nossa empreitada.
Estávamos entrando no clima da prova, quando os primeiros problemas começaram a aparecer. A Prefeitura de Piranhas agendou a van para nos pegar em Maceió com meio dia de atraso. Nessas condições, chegaríamos a Piranhas no iníco da noite para iniciarmos a travessia na manhã seguinte. Não haveria condições de descanso. O outro furo foi que a Santa Mara não iria nos acompanhar em nossa viagem, o que deixava a Santa Cristina sozinha (ou minimamente desacompanhada de seu marido) durante os 5 dias seguintes, previstos para suas férias na região.
A situação começou a ficar crítica. Na noite que antecedia nossa viagem não dispúnhamos de meios para chegar a Piranhas. Estávamos eu, o Foschini, o Niltão e santa esposa no saguão do hotel até altas horas da noite para equacionar via telefone com o Secretário de Turismo de Piranhas - conhecido como Cacau - o nosso traslado. Após horas de tentativas ficou combinado que alugaríamos uma van (ou um táxi) e que a Prefeitura de Piranhas nos reembolsaria a posteriori. Por sorte, quis o destino que conseguíssemos apenas um táxi - menos caro - pois a Prefeitura nunca nos reembolsou nada, ficando somente na promessa.
A esta altura, o Niltão percebeu que o nível de organização na região estava seriamente comprometido e que ele não aceitaria ficar separado de sua esposa durante a viagem. Foi então que ele tomou a sábia e acertada decisão de não acompanhar mais o grupo. Ele estava acostumado a um nível de organização muito mais elaborado, com o da Atlantis na 14 Bis e sabia que ainda viria chumbo grosso pela frente. Infelizmente ele estava certo - e eu sabia disso!
Aquilo foi um baque psicológico muito forte, mas eu o apoiei em sua decisão. Nós teríamos que nos virar com o que tínhamos disponível. Completar a travessia sem o Niltão ainda seria possível, mas não teria a mesma magia nem a mesma repercussão.
Os problemas de nosso Big Brother Alagoas haviam apenas começado...
Aquilo foi um empurrão e tanto. Em primeiro lugar, por que pro Niltão não tem mau tempo nunca. Ele é uma pessoa que, com seu entusiasmo, consegue incendiar o grupo e levantar a moral de todos seus componentes. Imediatamente começamos a expandir nossos planos para a prova: eu busquei um serviço de transmissão de imagens ao vivo pela internet (Livestream), contratei um baita plano de banda larga para transmissão em tempo real, fizemos testes de funcionamento do sistema, discutimos as rotinas diárias de acompanhamento dos atletas - enfim, estávamos trabalhando a todo vapor para assegurar a experiência mais agradável possível nas duras horas que teríamos pela frente.
O Niltão não somente seria capaz de orientar os recursos em terra para a consecução de nossos objetivos, ele teria a condição de guiar, como ninguém, os barcos de apoio durante a prova assim como agregar novas funções ao grupo (como a filmagem e transmissão ao vivo). Isto sem contar o seu voto de confiança a um grupo do qual ele conhecia apenas a mim e ao Foschini com maior proximidade.
Posso dizer que, com seus 110 Kg de simpatia, o Niltão seria uma presença DE PESO no grupo.
Assim aconteceu de nos encontrarmos já em Alagoas para um almoço na véspera de nosso traslado até a cidade de Piranhas. Estávamos reunidos na casa do Foschini, onde a Santa Mara Foschini (depois eu explico também este qualificador "Santa") nos ofereceu uma recepção calorosa e inesquecível.
Se o Foschini nadasse tudo o que a Mara cozinha, ele seria um Michael Phelps da terceira idade. Rsrs
Eita turminha boa de garfo, sô!
Até então estávamos preocupados com os aparatos para uma travessia deste porte: alimentos para os atletas (sobre os quais não havia consenso do grupo - cada um tinha seu cardápio e não havia jeito de unificar as posições a respeito), acondicionamento e manutenção dos alimentos (eu mesmo levei uma grande sacola térmica que foi indispensável para manter a malto numa temperatura agradável), alimentação para a equipe de apoio nos barcos, sinalizadores de emergência, lâmpadas químicas para nado noturno, lanterna de alta potência, rádios comunicadores, protetor solar, etc. Isto sem contar com os aparatos tecnológicos para transmissão ao vivo do evento. Eu não queria contar com a sorte - afinal, esperávamos que os bombeiros que nos acompanhassem apresentassem alguns destes recursos - essenciais para a segurança do nadador. Mas minha decisão de investir nestes itens foi acertada - não havia recursos disponíveis no local e tudo o que foi previsto foi absolutamente essencial para garantir a segurança e, por consequência, o sucesso de nossa empreitada.
Estávamos entrando no clima da prova, quando os primeiros problemas começaram a aparecer. A Prefeitura de Piranhas agendou a van para nos pegar em Maceió com meio dia de atraso. Nessas condições, chegaríamos a Piranhas no iníco da noite para iniciarmos a travessia na manhã seguinte. Não haveria condições de descanso. O outro furo foi que a Santa Mara não iria nos acompanhar em nossa viagem, o que deixava a Santa Cristina sozinha (ou minimamente desacompanhada de seu marido) durante os 5 dias seguintes, previstos para suas férias na região.
A situação começou a ficar crítica. Na noite que antecedia nossa viagem não dispúnhamos de meios para chegar a Piranhas. Estávamos eu, o Foschini, o Niltão e santa esposa no saguão do hotel até altas horas da noite para equacionar via telefone com o Secretário de Turismo de Piranhas - conhecido como Cacau - o nosso traslado. Após horas de tentativas ficou combinado que alugaríamos uma van (ou um táxi) e que a Prefeitura de Piranhas nos reembolsaria a posteriori. Por sorte, quis o destino que conseguíssemos apenas um táxi - menos caro - pois a Prefeitura nunca nos reembolsou nada, ficando somente na promessa.
A esta altura, o Niltão percebeu que o nível de organização na região estava seriamente comprometido e que ele não aceitaria ficar separado de sua esposa durante a viagem. Foi então que ele tomou a sábia e acertada decisão de não acompanhar mais o grupo. Ele estava acostumado a um nível de organização muito mais elaborado, com o da Atlantis na 14 Bis e sabia que ainda viria chumbo grosso pela frente. Infelizmente ele estava certo - e eu sabia disso!
Aquilo foi um baque psicológico muito forte, mas eu o apoiei em sua decisão. Nós teríamos que nos virar com o que tínhamos disponível. Completar a travessia sem o Niltão ainda seria possível, mas não teria a mesma magia nem a mesma repercussão.
Os problemas de nosso Big Brother Alagoas haviam apenas começado...
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Cap.2 - A importância de se formar um time
Poucos dias antes de nossa viagem a Alagoas para nossa grande Travessia, havíamos tido poucas chances de exercitar o espírito de equipe. Desde a ideia inicial do projeto até sua materialização foram apenas cerca de 4 meses. Neste pouco tempo, pudemos estar juntos apenas em duplas e em pouquíssimas ocasiões.
Eu e o Foschini visitamos algumas cidades da região em Alagoas cerca de dois meses antes da prova para contatar autoridades e conhecer minimamente as condições do rio. Eu e o Fabio nos encontramos uma manhã em Copacabana para um treino rápido de 40 minutos. O Alessandro e o Fabio treinaram uma manhã e uma tarde juntos na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. O Fabio e o Foschini fizeram um treino em mar já em Maceió e nadaram alguns poucos dias em piscina por lá.
Não tivemos a oportunidade de treinar todos juntos nem mesmo uma vez - e isso fez falta lá na frente, na hora do "vamos ver".
No entanto, o grupo mostrava muita força de vontade e buscava a coesão, apesar destas dificuldades. Trocávamos emails com treinos e experiências. No entanto, um de nossos colegas - o Tiago Sato de Brasília - estava com dificuldades para conseguir pagar por sua viagem (ele nos dizia que só iria se conseguisse um patrocinador) e, sem um horizonte de possibilidades, não treinou e não se envolveu no mesmo clima do restante do grupo. Enquanto alguns relatavam entusiasmo e bons resultados em seus treinos, o Sato relatava que "... não estava treinando nada", que nem sabia se conseguiria participar.
Isso o distanciou bastante dos objetivos do grupo e, ao final, não foi possível levá-lo. Foi um desgaste, mas acabou sendo uma decisão acertada. Afinal, uma prova deste calibre não é um passeio e demanda muita responsabilidade para que seja bem sucedida. Como disse o Foschini:
"Quem não treinar sério não vai conseguir terminar a prova." Infelizmente ele estava absolutamente correto ao afirmar isso - e eu concordava plenamente com ele -, como mostraremos adiante, na descrição em maiores detalhes desta prova.
Assim, fomos apenas quatro nadadores que viajamos até Piranhas para iniciar nosso projeto. Em Piranhas, conhecemos o Rodrigo, apelidado de "Tarzan do Cangaço", que se juntou ao grupo de última hora e que será descrito nos próximos capítulos. Mas ainda estávamos em busca da equipe ideal. Aquela que trabalha por um mesmo objetivo e pensa no grupo em primeiro lugar.
A meu ver, este foi o grande ponto de melhoria observado na inesquecível experiência que esta prova representou para todos nós. Se me perguntassem o que deveria ser mudado na organização de um evento assim, eu afirmaria sem titubear: "Forme uma equipe, exercite o espírito de união social e evite (ou pelo menos minimize) o efeito Big Brother durante a prova."
Vamos entender, nos próximos textos, como tudo se passou.
Eu e o Foschini visitamos algumas cidades da região em Alagoas cerca de dois meses antes da prova para contatar autoridades e conhecer minimamente as condições do rio. Eu e o Fabio nos encontramos uma manhã em Copacabana para um treino rápido de 40 minutos. O Alessandro e o Fabio treinaram uma manhã e uma tarde juntos na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. O Fabio e o Foschini fizeram um treino em mar já em Maceió e nadaram alguns poucos dias em piscina por lá.
Não tivemos a oportunidade de treinar todos juntos nem mesmo uma vez - e isso fez falta lá na frente, na hora do "vamos ver".
No entanto, o grupo mostrava muita força de vontade e buscava a coesão, apesar destas dificuldades. Trocávamos emails com treinos e experiências. No entanto, um de nossos colegas - o Tiago Sato de Brasília - estava com dificuldades para conseguir pagar por sua viagem (ele nos dizia que só iria se conseguisse um patrocinador) e, sem um horizonte de possibilidades, não treinou e não se envolveu no mesmo clima do restante do grupo. Enquanto alguns relatavam entusiasmo e bons resultados em seus treinos, o Sato relatava que "... não estava treinando nada", que nem sabia se conseguiria participar.
Isso o distanciou bastante dos objetivos do grupo e, ao final, não foi possível levá-lo. Foi um desgaste, mas acabou sendo uma decisão acertada. Afinal, uma prova deste calibre não é um passeio e demanda muita responsabilidade para que seja bem sucedida. Como disse o Foschini:
"Quem não treinar sério não vai conseguir terminar a prova." Infelizmente ele estava absolutamente correto ao afirmar isso - e eu concordava plenamente com ele -, como mostraremos adiante, na descrição em maiores detalhes desta prova.
Assim, fomos apenas quatro nadadores que viajamos até Piranhas para iniciar nosso projeto. Em Piranhas, conhecemos o Rodrigo, apelidado de "Tarzan do Cangaço", que se juntou ao grupo de última hora e que será descrito nos próximos capítulos. Mas ainda estávamos em busca da equipe ideal. Aquela que trabalha por um mesmo objetivo e pensa no grupo em primeiro lugar.
A meu ver, este foi o grande ponto de melhoria observado na inesquecível experiência que esta prova representou para todos nós. Se me perguntassem o que deveria ser mudado na organização de um evento assim, eu afirmaria sem titubear: "Forme uma equipe, exercite o espírito de união social e evite (ou pelo menos minimize) o efeito Big Brother durante a prova."
Vamos entender, nos próximos textos, como tudo se passou.
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